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Fim da Modernidade

A noção de “fim da modernidade” representa uma crítica profunda aos pressupostos e ideais que a nortearam, especialmente em relação à razão, ao sujeito, à objetividade e ao progresso. Essa ideia sugere que os paradigmas e projetos filosóficos tradicionais se tornaram insuficientes para lidar com os desafios e dilemas da contemporaneidade.

Em "O Discurso filosófico da modernidade", Jürgen Habermas afirma:

Ao tentar superar a filosofia do sujeito, Hegel e Marx tinham ficado enredados nos próprios conceitos básicos dessa filosofia. Tal censura não se pode fazer a Heidegger, mas pode-se levantar uma objeção de gravidade semelhante. Heidegger desprende-se tão pouco das afirmações problemáticas da consciência transcendental que não pode fazer explodir o casulo conceptual fundamental da ·filosofia da consciência a não ser pela via da negação abstrata. Na Carta sobre o Humanismo, que resume o resultado de uma interpretação de Nietzsche empreendida durante dez anos, Heidegger ainda caracteriza o seu próprio procedimento através de referências implícitas a Husserl. Aí, Heidegger afirma querer ‘conservar a ajuda essencial da visão fenomenológica e não obstante renunciar ao propósito de ciência e investigação’ Husserl entendia a redução transcendental como uma atuação que permitiria ao fenomenólogo estabelecer uma cisão nítida entre o mundo do ente, dado na atitude natural, e a esfera da consciência pura, constituinte, a qual somente dá sentido ao ente. Heidegger insistiu durante toda a vida no intuicionismo deste procedimento; na filosofia da última fase, o processo é aliviado apenas da exigência metodológica e liberto dos seus limites de modo a aceder a um ‘radicar’ privilegiado ‘no seio da verdade do ser’. Também a problemática de Husserl permanece determinante para Heidegger, na medida em que este remete apenas para o ontológico a questão fundamental do ponto de vista da teoria do conhecimento. Em ambos os casos, o olhar fenomenológico dirige-se para o mundo enquanto correlato do sujeito cognoscente. Diversamente de Humboldt, de Georg Herbert Mead e do Wittgenstein da última fase, por exemplo, Heidegger não se desprende da acentuação tradicional do comportamento teórico, do uso constante da linguagem e da exigência de validade da verdade proposicional. Também Heidegger acaba por ficar preso, de modo negativo, ao fundamentalismo da filosofia da consciência. Na introdução à obra O que é a metafísica, compara a filosofia a uma árvore que se ramifica nas várias ciências e que se emancipa ela própria da raiz da metafísica. A propagada rememoração do ser não põe em questão a abordagem fundamentalista — ‘para falar por imagens, não arranca a raiz da filosofia. Cava-lhe a terra e lavra-lhe o solo’”. (HABERMAS, Jürgen. O Discurso filosófico da modernidade. Trad. de Ana Maria Bernardo et al. Lisboa, Portugal: Publicações Dom Quixote, 1998. p. 136, 137).

Ao analisar o texto de Jürgen Habermas, vemos uma crítica à filosofia da consciência que permeou grande parte da modernidade, especialmente representada por filósofos como Hegel, Marx e Heidegger. Essa crítica aponta para a limitação e inadequação desses paradigmas em lidar com questões fundamentais, como a relação entre sujeito e objeto, a natureza da verdade e do conhecimento, e a compreensão do ser e da existência.

O “fim da modernidade” também se associa ao declínio dos grandes metanarrativas, que, por exemplo, incluíam o progresso linear da história, a supremacia da razão e da ciência, além da ideia de emancipação humana através do conhecimento e da tecnologia. No entanto, a crítica pós-moderna questionou a validade e a eficácia dessas narrativas, argumentando que elas muitas vezes encobriam relações de poder, exclusão e opressão.

Portanto, o “fim da modernidade” implica uma ruptura epistemológica, ontológica e ética com os fundamentos da modernidade, levando a uma revisão profunda dos conceitos e categorias filosóficas que orientaram o pensamento ocidental por séculos. Isso não significa necessariamente o abandono completo desses conceitos, mas uma reavaliação crítica e uma busca por novas abordagens filosóficas que possam dar conta das complexidades e pluralidades do mundo contemporâneo.

A obra de Zygmunt Bauman, por exemplo, contribui significativamente para a discussão sobre o “fim da modernidade” e suas implicações na sociedade atual. Bauman argumentou que a modernidade sólida, caracterizada por instituições estáveis, identidades fixas e um sentido claro de progresso, deu lugar a uma “modernidade líquida”.

A liquidez moderna, conforme descrita por Bauman, é marcada pela fluidez, pela incerteza e pela falta de estruturas sólidas e duradouras. Nesse contexto, as certezas absolutas da modernidade, como a crença na razão, na verdade objetiva e na capacidade do conhecimento científico de resolver todos os problemas, tornam-se questionáveis. Bauman enfatizou a fragilidade das instituições modernas e a instabilidade das relações sociais na era da liquidez.

Relacionando isso ao tema, pode-se inferir que Bauman contribui para a crítica das grandes narrativas modernas, como o progresso ilimitado, a racionalidade absoluta e a emancipação total, já que essas narrativas não apenas falharam em cumprir suas promessas, como também exacerbaram problemas como a desigualdade, a exclusão social e a falta de sentido e pertencimento.

Ademais, ao destacar a fluidez e a incerteza como características fundamentais da modernidade líquida, Bauman chama a atenção para a necessidade de repensar não apenas os fundamentos da modernidade, mas também as formas de pensar, agir e se relacionar na sociedade contemporânea.


Railma Venancio

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