A literatura como ferramenta de memória e resistência: uma análise da novela Cachorro Velho, de Teresa Cárdenas
Alguns livros nos pegam pela mão com delicadeza, outros nos jogam direto no abismo. Cachorro Velho, da escritora cubana Teresa Cárdenas, pertence a esse segundo grupo. É um livro curto — em páginas — mas longo no eco que deixa. Trata-se de uma narrativa que nos convida a entrar na mente e na vida de um homem escravizado — e a refletir sobre um passado colonial que moldou (e ainda molda) toda a América Latina. Cuba foi um dos últimos países das Américas a abolir formalmente a escravidão, perdendo apenas para o Brasil. A economia da ilha, durante os séculos XVIII e XIX, foi fortemente baseada na monocultura do açúcar, sustentada pelo trabalho escravo africano. Estima-se que cerca de um milhão de africanos foram traficados para a ilha. A escravidão cubana foi particularmente brutal, marcada por castigos físicos extremos, separação de famílias, e uma completa negação da subjetividade das pessoas escravizadas. Por lá, a abolição só ocorreu em 1886 e é justamente nesse passado brutal que a a...