Da primeira onda de líderes carismáticos que marcou as décadas de 1930-60, com figuras como Getúlio Vargas no Brasil e Juan Perón na Argentina, a América Latina atravessou ainda longos períodos de regimes militares e, nos anos 1990, abraçou programas neoliberais que prometeram estabilidade econômica e inserção na globalização (ScienceDirect). Esse percurso histórico, repleto de viragens institucionais e crises sociais, suscita hoje uma questão inevitável: o populismo ficou confinado ao século XX ou segue vivo, reinventando-se em novos discursos que opõem “o povo” às elites, como sugerem análises sobre a atual “nova onda” populista no continente? (LLYC)
O populismo latino-americano não ficou circunscrito às décadas de 1930-60: ele renasceu em novos ambientes sociais e econômicos, fenômeno que Boris Fausto chamou de neopopulismo. O “velho” populismo apoiava-se no Estado nacional-desenvolvimentista, na burguesia industrial e nos sindicatos; o “novo” brota num contexto de globalização, precarização do trabalho e exclusão urbana, conservando o personalismo, porém ancorando-se em massas marginalizadas. Hoje, figuras como Jair Bolsonaro, Andrés Manuel López Obrador, Nayib Bukele ou Nicolás Maduro mostram que a lógica populista segue viva. No passado, líderes como Getúlio Vargas exemplificaram o formato clássico, combinando carisma, nacionalismo econômico e distribuição de direitos trabalhistas. A seguir, aprofundo esses três pontos.
Na coluna “O neopopulismo na América Latina”, Fausto assinala dois eixos de ruptura. O primeiro é o cenário estrutural: o populismo clássico floresceu durante o modelo de “desenvolvimento para dentro” dos anos 1940-60, quando o Estado era motor da industrialização e consolidava pactos com sindicatos e empresários nacionais (Folha de S.Paulo). O neopopulismo, ao contrário, ergue-se na era da globalização pós-1980; o Estado segue relevante, mas perdeu o papel de planificador absoluto e vê seus setores estratégicos internacionalizados (Folha de S.Paulo).
O segundo eixo é a base social. Antes, o tripé do populismo eram operariado organizado, burguesia industrial e Estado (Folha de S.Paulo). Agora, “a burguesia internacionalizada abandonou o barco” e a sustentação se desloca para multidões urbanas precarizadas e, em países andinos, populações indígenas que articulam reivindicações étnicas próprias (Folha de S.Paulo). Persistem, contudo, características de longa duração: personalismo, crença no líder salvador e viés autoritário, reavivados por frustrações sociais que a democracia liberal não resolveu – desemprego, informalidade, violência (Folha de S.Paulo).
A literatura e a imprensa convergem em afirmar que o populismo segue atuante. A própria Folha, ao discutir o conceito, lembra que ele abrange líderes tão distintos quanto Viktor Orbán, Evo Morales e Jair Bolsonaro, todos marcados por apelos diretos “à vontade do povo” contra elites internas ou externas (Folha de S.Paulo).
Pesquisa do projeto Team Populism, repercutida pela Exame, classifica Jair Bolsonaro como o primeiro presidente brasileiro “claramente populista” desde Fernando Collor; seus discursos dividem sociedade entre “povo de bem” e “elite corrupta”, reforçando identidades morais e prometendo ruptura com o sistema (Exame). Estudos acadêmicos e de imprensa apontam a mesma retórica antissistema, nacionalista e personalista (OpenEdition Journals).
Já no México, na posse de Andrés Manuel López Obrador, em 2018, a BBC sublinhou que ele prometia uma “transformação radical” em nome dos pobres e que rejeitava “políticas neoliberais” enquanto se apresentava como encarnação da vontade popular, típico recurso populista (BBC). Estudos mostram que seu discurso nas redes reforça a relação direta líder-povo e a ideia de que “nada nem ninguém estará acima da vontade soberana” (Revistas UNAM).
Esses exemplos, somados a Nayib Bukele em El Salvador, Hugo Chávez/Nicolás Maduro na Venezuela ou Evo Morales na Bolívia, confirmam que o populismo se atualiza, ora à direita, ora à esquerda (SciELO México, O GLOBO).
Getúlio Vargas (Brasil, 1930-45 e 1951-54) ilustra o populismo clássico. Pós-Revolução 1930, centralizou o poder, promoveu industrialização de base (Companhia Siderúrgica Nacional, Vale do Rio Doce) e usou intensa propaganda radiofônica para construir a imagem de “pai dos pobres” (Unisepe, Brasil Escola). Seu braço social mais duradouro foi a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), decretada em 1º de maio de 1943, que unificou jornada de oito horas, férias remuneradas, carteira profissional e justiça do trabalho, ao mesmo tempo em que enquadrava sindicatos sob controle estatal (Brasil Escola).
Vargas conciliava nacionalismo econômico, tal qual a defesa do petróleo nacional culminando na criação da Petrobras em 1953 (Politize), com políticas de massas que reforçavam o vínculo afetivo com trabalhadores urbanos, enquanto preservava parte dos interesses das elites rurais e industriais, razão de seu simultâneo epíteto de “pai dos pobres” e “mãe dos ricos” (Brasil Escola). Tal combinação de distribuição de benefícios, personalismo e controle político tornou-o paradigma do populismo latino-americano, modelo que, como vimos, seria retomado e reinventado por neopopulistas do século XXI.
Portanto, o percurso da América Latina confirma que o populismo não é relíquia; ele muda conforme as brechas socioeconômicas, mas continua a oferecer narrativas simples para problemas complexos, embalar esperanças e, às vezes, corroer instituições. Logo, reconhecer suas continuidades e rupturas ajuda-nos a compreender a política contemporânea do continente.
Railma Venancio
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