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Mostrando postagens de 2025

Do despojamento ao indizível: a fenomenologia na literatura de Clarice Lispector

Neste texto, procuro aproximar a escrita de Clarice Lispector da experiência vivida em três de suas obras: o romance A paixão segundo G.H. e os contos Perdoando Deus, de Laços de Família, e Persona, de A via crucis do corpo. Em todas essas narrativas, Clarice conduz suas personagens a momentos de suspensão das certezas, em que a vida se mostra em sua crueza e intensidade. É nesse movimento que sua literatura toca a fenomenologia, pois revela, pela via da ficção, questões profundas da existência. Publicado em 1964, o romance A paixão segundo G.H. é, a meu ver, uma das obras mais enigmáticas e ousadas da literatura brasileira. Longe de seguir uma trama convencional, Clarice Lispector conduz sua protagonista a um mergulho vertiginoso em uma experiência de ruptura, desencadeada pelo encontro inesperado com uma barata no quarto de empregada de seu apartamento. O que poderia ser apenas um episódio trivial ganha outra dimensão: torna-se uma crise de identidade, um choque com o nada e, ao mesm...

Promessas de riqueza, realidade de conflitos: a trama colonial até a independência

 Lilia Schwarcz e Heloisa Starling lembram que “a história só é previsível quando vista de longe”, pois, de perto, ela é uma sucessão de tensões, avanços e recuos que, no caso do Brasil, transformaram um projeto de colonização costeira em império e, depois, em Estado independente, sempre carregando contradições profundas. No século XVII, a interiorização prometia “domar” sertões desconhecidos e multiplicar riquezas. A palavra sertão, “desertão”, espaço vazio de súditos, logo passou a evocar medo, barbárie e, ao mesmo tempo, oportunidade para a expansão da fé católica, do negócio escravista e da autoridade régia. Bandeiras armadas abriram caminho com violência contra povos indígenas e quilombos, enquanto a Coroa incentivava a busca de metais. Quando o ouro finalmente apareceu em Minas, no final do século XVII, Lisboa falava em “tesouros imensos prontos a serem descobertos”, mas a realidade foi outra: nas lavras, diz Laura de Mello e Souza, proliferaram vadios, miseráveis e “desclass...

Populismo na América Latina: do legado histórico às novas faces do século XXI

Da primeira onda de líderes carismáticos que marcou as décadas de 1930-60, com figuras como Getúlio Vargas no Brasil e Juan Perón na Argentina, a América Latina atravessou ainda longos períodos de regimes militares e, nos anos 1990, abraçou programas neoliberais que prometeram estabilidade econômica e inserção na globalização ( ScienceDirect ). Esse percurso histórico, repleto de viragens institucionais e crises sociais, suscita hoje uma questão inevitável: o populismo ficou confinado ao século XX ou segue vivo, reinventando-se em novos discursos que opõem “o povo” às elites, como sugerem análises sobre a atual “nova onda” populista no continente? ( LLYC ) O populismo latino-americano não ficou circunscrito às décadas de 1930-60: ele renasceu em novos ambientes sociais e econômicos, fenômeno que Boris Fausto chamou de neopopulismo . O “velho” populismo apoiava-se no Estado nacional-desenvolvimentista, na burguesia industrial e nos sindicatos; o “novo” brota num contexto de globali...

Entre Pedras e Justiça: patrimônio sensível, memória coletiva e reparação transformativa segundo Nancy Fraser

O debate sobre o patrimônio histórico ganhou força recentemente ao girar em torno da destruição ou remoção de monumentos associados à escravidão, a regimes autoritários ou a formas de preconceito. Movimentos sociais sustentam que esses símbolos devem desaparecer da paisagem para não perpetuar violência simbólica contra grupos oprimidos, já especialistas em conservação argumentam que manter tais vestígios, acompanhados de contextualização crítica, é fundamental para encarar e problematizar o passado em vez de apagá-lo. Verdade é que, a memória coletiva fornece o cimento das identidades porque, como mostrou Maurice Halbwachs,  cada lembrança individual é apenas um ponto de vista dentro de um quadro lembrado em comum, e a força desse quadro define quem pertence ao grupo e quais valores serão transmitidos  .  Quando esses valores recebem forma material num monumento, tal objeto passa a funcionar como extensão física da identidade social,  mas também como campo de di...

A literatura como ferramenta de memória e resistência: uma análise da novela Cachorro Velho, de Teresa Cárdenas

Alguns livros nos pegam pela mão com delicadeza, outros nos jogam direto no abismo. Cachorro Velho, da escritora cubana Teresa Cárdenas, pertence a esse segundo grupo. É um livro curto — em páginas — mas longo no eco que deixa. Trata-se de uma narrativa que nos convida a entrar na mente e na vida de um homem escravizado — e a refletir sobre um passado colonial que moldou (e ainda molda) toda a América Latina. Cuba foi um dos últimos países das Américas a abolir formalmente a escravidão, perdendo apenas para o Brasil. A economia da ilha, durante os séculos XVIII e XIX, foi fortemente baseada na monocultura do açúcar, sustentada pelo trabalho escravo africano. Estima-se que cerca de um milhão de africanos foram traficados para a ilha. A escravidão cubana foi particularmente brutal, marcada por castigos físicos extremos, separação de famílias, e uma completa negação da subjetividade das pessoas escravizadas. Por lá, a abolição só ocorreu em 1886 e é justamente nesse passado brutal que a a...

As lições de 1984

George Orwell, em sua obra derradeira intitulada “1984”, constrói uma narrativa distópica capaz de dialogar com questões políticas, históricas e sociais muito presentes na época de sua publicação e ainda atuais. A pesquisadora e professora Débora Tavares, especialista na produção literária de Orwell, identifica três fases na trajetória do autor, que culminam nesse romance. Primeiramente, há a fase documental , voltada para livros de caráter autobiográfico que documentam a realidade de forma direta. Em seguida, surge a fase naturalista , cujo traço principal é a descrição realista, por vezes grotesca, de situações cotidianas. Por fim, a fase satírica , concentrada no final dos anos 1940, na qual se incluem os livros “A Revolução dos Bichos” e “1984”. A prosa desse período se caracteriza por ironia e crítica social mais explícitas , bem representadas no mundo imaginário em que tudo deu errado. No enredo de “1984”, Orwell projeta um futuro no qual a sociedade se divide em blocos geopolíti...

Para que Filosofia no Currículo do Ensino Médio?

  Em um cenário em que diversas disciplinas são raramente questionadas quanto à sua utilidade prática, a Filosofia ocupa um lugar paradoxal: é, talvez, o saber mais frequentemente interrogado acerca de sua relevância. Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, salienta essa incongruência ao afirmar que não costumamos perguntar “Para que Física?” ou “Para que Geografia?”, mas nos parece natural inquirir “Para que Filosofia?”. Essa diferença de tratamento revela, em nosso contexto cultural, a tendência de considerar válida apenas a busca por conhecimentos de aplicabilidade imediata, em detrimento de reflexões mais profundas sobre a realidade, a sociedade e o próprio ser humano. No entanto, ao observarmos os argumentos da autora – de que a Filosofia possibilita abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum, resistir aos poderes dominantes e compreender as dimensões culturais, históricas e artísticas da vida –, percebemos a essencialidade desse campo para a formação de sujeitos...