Lilia Schwarcz e Heloisa Starling lembram que “a história só é previsível quando vista de longe”, pois, de perto, ela é uma sucessão de tensões, avanços e recuos que, no caso do Brasil, transformaram um projeto de colonização costeira em império e, depois, em Estado independente, sempre carregando contradições profundas.
No século XVII, a interiorização prometia “domar” sertões desconhecidos e multiplicar riquezas. A palavra sertão, “desertão”, espaço vazio de súditos, logo passou a evocar medo, barbárie e, ao mesmo tempo, oportunidade para a expansão da fé católica, do negócio escravista e da autoridade régia. Bandeiras armadas abriram caminho com violência contra povos indígenas e quilombos, enquanto a Coroa incentivava a busca de metais. Quando o ouro finalmente apareceu em Minas, no final do século XVII, Lisboa falava em “tesouros imensos prontos a serem descobertos”, mas a realidade foi outra: nas lavras, diz Laura de Mello e Souza, proliferaram vadios, miseráveis e “desclassificados” que trabalhavam sob condições precárias e viam a promessa de prosperidade se converter em endividamento e fome.
Para extrair a parte régia da nova riqueza, a metrópole criou o quinto, as Casas de Fundição e uma máquina fiscal cada vez mais intrusiva. O resultado foi um ciclo de motins - da Revolta de Vila Rica (1720) à Conjuração Mineira (1789), acompanhados por protestos contra impostos sobre cachaça, tabaco ou comércio do Maranhão. Mesmo a Revolta dos Mascates, em 1710, já ensaiava a ideia de ruptura política, ainda que seus líderes dependessem do sistema colonial que criticavam. Em todas essas rebeliões, as elites locais atacavam o peso fiscal de Lisboa, mas raramente a ordem escravista que lhes garantia lucros.
A fuga de d. João VI para o Rio em 1808 parecia resolver o impasse: a colônia tornou-se centro do Império Português, os portos foram abertos e multiplicaram-se favores, títulos e cargos para atrair a nobreza da terra. Contudo, a presença da Corte inchou a estrutura administrativa, elevou impostos e fortaleceu privilégios, sem tocar no núcleo da desigualdade - a escravidão - cujo tráfico chegou a crescer sob a proteção dos próprios governantes. A modernização vinha acompanhada de velhas hierarquias e de um custo que recaía sobre as províncias mais pobres.
Quando, em 1822, d. Pedro proclamou a independência, rompeu-se o elo jurídico com Lisboa, mas manteve-se o trono, o latifúndio e o trabalho cativo. A separação política, apoiada por senhores de Minas, São Paulo e Rio, não aboliu a escravidão nem satisfez regiões como Bahia e Pernambuco, que continuaram a se insurgir contra uma corte agora brasileira. A “solução monárquica”, observa Schwarcz, nasceu carregada de paradoxo: um país que se dizia livre, mas ainda submetia a maioria da população à servidão e preservava acentuadas desigualdades regionais.
Vista de longe, a cronologia parece linear - litoral, sertão, ouro, corte, independência. Vista de perto, revela-se uma sequência de promessas de progresso sustentadas por violência, tributação e exclusão social. Essas contradições explicam por que o Brasil chegou à autonomia política sem alterar as bases econômicas e sociais forjadas no período colonial, confirmando que o curso da história, mais que previsível, é sempre um campo de disputas onde permanências pesam tanto quanto mudanças.
Railma Venancio
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