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Controle social e violência neural

 O controle social, que se relaciona com os meios adotados pela sociedade para fazer com que o indivíduo observe os padrões de comportamentos referentes aos valores predominantes, garantindo, assim, uma convivência harmoniosa e pacífica, é uma das formas de se exercer os poderes político, econômico e ideológico no bairro e na cidade.

Fazendo uso de minha formação em Direito, gostaria de usar a criminologia como exemplo do que digo. É que a referida ciência estuda as formas de resposta social ao delito, investigando a eficácia e os efeitos das sanções penais no processo de controle e prevenção do crime. Através dela, pode-se dizer que o controle social pode ser classificado a partir das seguintes formas de manifestação:

  1. Controle social formal, que é exercido pelas instituições oficiais do Estado, tais como as polícias, Ministérios Públicos, Poder Judiciário etc., e
  2. Controle social informal, que é exercido pela sociedade civil (família, escola, vizinhos, opinião pública, mídia etc.), com a difusão das regras sociais, fazendo com que as mesmas sejam internalizadas pelo indivíduo ao longo do processo de socialização, bem como pela aplicação das sanções sociais (estigma negativo, castigo aos filhos pequenos etc.).

Imagino que outro exemplo de exercício do poder pode ser dado a partir dos efeitos colaterais do discurso motivacional. Isso mesmo. No livro Sociedade do cansaço, do Byung-Chul Han, é possível perceber que, desde o início do século XXI, o mercado de palestras e livros motivacionais tem prosperado, sem indícios de desaquecimento. Enquanto isso, as religiões tradicionais perdem adeptos e novas igrejas adotam um discurso de encorajamento e autoajuda em substituição ao foco no pecado. No mesmo ritmo, instituições políticas e empresariais abandonaram a punição e a hierarquia, optando por estímulos positivos, eficiência e reconhecimento social pela superação de limitações.

Para o autor, Byung-Chul Han, a sociedade disciplinar e repressora do século XX, descrita por Michel Foucault, está sendo substituída por uma forma de organização coercitiva diferente: a violência neuronal. Isso porque, as pessoas estão cada vez mais cobradas por resultados, tornando-se vigilantes e implacáveis consigo mesmas. Assim, numa época em que poderíamos trabalhar menos e ganhar mais, a ideologia da positividade promove o contrário: mais trabalho e menos recompensa.

Portanto, o lema do “eu consigo” e do “yes, we can” tem contribuído significativamente para o aumento de doenças como depressão, transtornos de personalidade, hiperatividade e burnout.


Railma Venancio

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