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Mostrando postagens de maio, 2025

Promessas de riqueza, realidade de conflitos: a trama colonial até a independência

 Lilia Schwarcz e Heloisa Starling lembram que “a história só é previsível quando vista de longe”, pois, de perto, ela é uma sucessão de tensões, avanços e recuos que, no caso do Brasil, transformaram um projeto de colonização costeira em império e, depois, em Estado independente, sempre carregando contradições profundas. No século XVII, a interiorização prometia “domar” sertões desconhecidos e multiplicar riquezas. A palavra sertão, “desertão”, espaço vazio de súditos, logo passou a evocar medo, barbárie e, ao mesmo tempo, oportunidade para a expansão da fé católica, do negócio escravista e da autoridade régia. Bandeiras armadas abriram caminho com violência contra povos indígenas e quilombos, enquanto a Coroa incentivava a busca de metais. Quando o ouro finalmente apareceu em Minas, no final do século XVII, Lisboa falava em “tesouros imensos prontos a serem descobertos”, mas a realidade foi outra: nas lavras, diz Laura de Mello e Souza, proliferaram vadios, miseráveis e “desclass...

Populismo na América Latina: do legado histórico às novas faces do século XXI

Da primeira onda de líderes carismáticos que marcou as décadas de 1930-60, com figuras como Getúlio Vargas no Brasil e Juan Perón na Argentina, a América Latina atravessou ainda longos períodos de regimes militares e, nos anos 1990, abraçou programas neoliberais que prometeram estabilidade econômica e inserção na globalização ( ScienceDirect ). Esse percurso histórico, repleto de viragens institucionais e crises sociais, suscita hoje uma questão inevitável: o populismo ficou confinado ao século XX ou segue vivo, reinventando-se em novos discursos que opõem “o povo” às elites, como sugerem análises sobre a atual “nova onda” populista no continente? ( LLYC ) O populismo latino-americano não ficou circunscrito às décadas de 1930-60: ele renasceu em novos ambientes sociais e econômicos, fenômeno que Boris Fausto chamou de neopopulismo . O “velho” populismo apoiava-se no Estado nacional-desenvolvimentista, na burguesia industrial e nos sindicatos; o “novo” brota num contexto de globali...

Entre Pedras e Justiça: patrimônio sensível, memória coletiva e reparação transformativa segundo Nancy Fraser

O debate sobre o patrimônio histórico ganhou força recentemente ao girar em torno da destruição ou remoção de monumentos associados à escravidão, a regimes autoritários ou a formas de preconceito. Movimentos sociais sustentam que esses símbolos devem desaparecer da paisagem para não perpetuar violência simbólica contra grupos oprimidos, já especialistas em conservação argumentam que manter tais vestígios, acompanhados de contextualização crítica, é fundamental para encarar e problematizar o passado em vez de apagá-lo. Verdade é que, a memória coletiva fornece o cimento das identidades porque, como mostrou Maurice Halbwachs,  cada lembrança individual é apenas um ponto de vista dentro de um quadro lembrado em comum, e a força desse quadro define quem pertence ao grupo e quais valores serão transmitidos  .  Quando esses valores recebem forma material num monumento, tal objeto passa a funcionar como extensão física da identidade social,  mas também como campo de di...