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Do despojamento ao indizível: a fenomenologia na literatura de Clarice Lispector

Neste texto, procuro aproximar a escrita de Clarice Lispector da experiência vivida em três de suas obras: o romance A paixão segundo G.H. e os contos Perdoando Deus, de Laços de Família, e Persona, de A via crucis do corpo. Em todas essas narrativas, Clarice conduz suas personagens a momentos de suspensão das certezas, em que a vida se mostra em sua crueza e intensidade. É nesse movimento que sua literatura toca a fenomenologia, pois revela, pela via da ficção, questões profundas da existência.

Publicado em 1964, o romance A paixão segundo G.H. é, a meu ver, uma das obras mais enigmáticas e ousadas da literatura brasileira. Longe de seguir uma trama convencional, Clarice Lispector conduz sua protagonista a um mergulho vertiginoso em uma experiência de ruptura, desencadeada pelo encontro inesperado com uma barata no quarto de empregada de seu apartamento. O que poderia ser apenas um episódio trivial ganha outra dimensão: torna-se uma crise de identidade, um choque com o nada e, ao mesmo tempo, uma abertura para a transcendência.

Essa experiência pode ser lida de modo fecundo à luz da fenomenologia, corrente filosófica inaugurada por Edmund Husserl e aprofundada por Martin Heidegger e Maurice Merleau-Ponty. A fenomenologia, enquanto método, busca descrever a experiência vivida (Erlebnis) em sua pureza, sem os filtros conceituais ou científicos que a deformam.

Husserl, fundador da fenomenologia, defendia que era preciso suspender preconceitos e crenças do cotidiano para atingir a essência dos fenômenos. Esse movimento, chamado de epoché, consiste em “colocar entre parênteses tudo o que é pressuposição, para ver o que se mostra em si mesmo” (HUSSERL, Ideias I). Algo semelhante ocorre com G.H.: a barata, que para o senso comum é apenas um ser abjeto, torna-se objeto de uma percepção radical, que escapa ao uso ordinário da consciência. A personagem se vê obrigada a “parar de interpretar” e a confrontar a matéria bruta da vida: “O mundo se me apresentava sem ordem, sem beleza, sem feiura. Apenas se apresentava” (LISPECTOR, 1964). Nesse gesto, Clarice dramatiza literariamente a suspensão fenomenológica, na qual a realidade surge despojada de significados prévios.

Esse despojamento conduz a protagonista à experiência da angústia, tal como pensada por Heidegger em Ser e Tempo. Para o filósofo, a angústia é a revelação do nada, que desvela ao ser humano sua condição de ser-para-a-morte. G.H., ao olhar para a barata esmagada, sente-se diante de algo que a anula e a revela ao mesmo tempo: “A barata era o mundo. A barata era a minha vida” (LISPECTOR, 1964). Nessa fusão entre o eu e o inseto, revela-se o colapso das categorias sociais e subjetivas que sustentavam sua identidade. Assim como em Heidegger, o encontro com o nada não é apenas destrutivo: é também possibilidade de autenticidade. A experiência-limite obriga G.H. a se reconhecer sem máscaras, diante da finitude que partilha com todos os seres.

Outro aspecto essencial é o caráter corporal da experiência. Merleau-Ponty, em Fenomenologia da percepção, afirma que “é pelo corpo que temos um mundo”. A consciência não é um espírito abstrato, mas uma intencionalidade encarnada. A reação de G.H. diante da barata não é puramente racional: ela sente nojo, repulsa, um contato visceral que a aproxima do inseto em sua materialidade. Ao experimentar a quase fusão com a barata, chegando a tocar na massa branca que dela escorre, G.H. vivencia a revelação da vida não como conceito, mas como carne. A repulsa é, paradoxalmente, via de conhecimento: “Eu estava sendo forçada a descer à matéria viva, e dela me alimentar” (LISPECTOR, 1964).

A obra também evidencia um limite fundamental: o da linguagem. A tentativa de G.H. de narrar sua experiência fracassa continuamente, porque ela toca um núcleo indizível. Clarice, em seu gesto literário, aproxima-se da fenomenologia ao reconhecer que a vivência excede qualquer conceito fixo. Husserl já havia advertido sobre a insuficiência da lógica diante do fenômeno puro; Heidegger falava da necessidade de uma linguagem poética para dizer o ser; Merleau-Ponty insistia que o mundo vivido é sempre mais rico que nossas descrições. G.H. ressoa essas intuições filosóficas ao afirmar: “O que estou dizendo não é o que quero dizer. O que quero dizer não pode ser dito” (LISPECTOR, 1964). O romance inteiro é um esforço de escrever o indizível, de traduzir em palavras a experiência que escapa à linguagem, mas que, paradoxalmente, só pode ser comunicada por meio dela.

Essa mesma chave de leitura pode iluminar o conto Perdoando Deus, publicado em Laços de Família. Nele, a narradora confronta a ausência de garantias últimas e experimenta a vulnerabilidade de um mundo sem respostas definitivas. O gesto de “perdoar Deus” não é blasfemo, mas existencial: traduz a consciência de que a experiência humana é atravessada pela falta, pelo inacabamento, pela contingência. Sob o prisma fenomenológico, percebe-se a abertura à experiência pura da vida, sem o consolo de explicações transcendentes. Heidegger fala da angústia como desvelamento da condição do ser-aí diante do nada; Clarice encena literariamente esse desvelamento quando a personagem descobre que perdoar Deus é, na verdade, assumir a própria liberdade diante da ausência de fundamentos absolutos. A atitude fenomenológica se manifesta no despojamento: não há conceito, dogma ou crença capaz de neutralizar a irrupção da experiência em sua crueza.

Já no conto Persona, de A via crucis do corpo, a fenomenologia se reflete na investigação do eu e de suas máscaras. A protagonista percebe viver em meio a representações sociais e íntimas que a distanciam de sua autenticidade. O termo “persona”, oriundo do latim, remete à máscara teatral; em Heidegger, pode-se relacionar esse jogo ao domínio do se impessoal (das Man), que esvazia o ser humano de sua singularidade. O texto clariciano evidencia o desconforto de viver sob papéis impostos, mas também a possibilidade de suspender esses papéis para vislumbrar uma existência mais autêntica. Sob a lente merleau-pontyana, essa experiência não se dá apenas no plano do pensamento, mas também no corpo, que encarna as tensões entre interioridade e exterioridade, entre o vivido e o representado. O conto, assim, dramatiza a dialética entre aparência e essência, mostrando como a experiência fenomenológica exige atravessar a máscara para alcançar a carne da vida.

Unindo esses três textos: o romance A paixão segundo G.H. e os contos Perdoando Deus e Persona, percebe-se um mesmo movimento: Clarice Lispector tensiona os limites da experiência humana, conduzindo suas personagens a um ponto de suspensão das certezas cotidianas. Em todos os casos, há uma epoché literária: um recuo em relação ao mundo banalmente interpretado, que abre espaço ao fenômeno em sua presença imediata, seja a barata abjeta, a ausência de Deus ou a persona que encobre a subjetividade. Nessas situações-limite, a linguagem se mostra precária, mas também fértil, porque permite insinuar o indizível. Clarice transforma, assim, sua literatura em um exercício fenomenológico, capaz de revelar o sentido da existência em sua dimensão mais elementar: a angústia, a corporeidade, o despojamento e a luta para dizer o que escapa às palavras.

A fenomenologia, portanto, nos auxilia a compreender a problemática central da autora. Clarice Lispector não apenas narra crises individuais: ela encena literariamente o movimento fenomenológico: a suspensão dos sentidos prévios, a abertura ao fenômeno em sua nudez, a vivência da angústia, a corporeidade da percepção e o confronto com os limites da linguagem. Ler Lispector é, nesse sentido, realizar uma investigação filosófica em forma de literatura, que mostra como a ficção pode ser veículo de pensamento tão radical quanto a própria filosofia.


Railma Venancio

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