Neste texto, procuro aproximar a escrita de Clarice Lispector da experiência vivida em três de suas obras: o romance A paixão segundo G.H. e os contos Perdoando Deus, de Laços de Família, e Persona, de A via crucis do corpo. Em todas essas narrativas, Clarice conduz suas personagens a momentos de suspensão das certezas, em que a vida se mostra em sua crueza e intensidade. É nesse movimento que sua literatura toca a fenomenologia, pois revela, pela via da ficção, questões profundas da existência. Publicado em 1964, o romance A paixão segundo G.H. é, a meu ver, uma das obras mais enigmáticas e ousadas da literatura brasileira. Longe de seguir uma trama convencional, Clarice Lispector conduz sua protagonista a um mergulho vertiginoso em uma experiência de ruptura, desencadeada pelo encontro inesperado com uma barata no quarto de empregada de seu apartamento. O que poderia ser apenas um episódio trivial ganha outra dimensão: torna-se uma crise de identidade, um choque com o nada e, ao mesm...
Lilia Schwarcz e Heloisa Starling lembram que “a história só é previsível quando vista de longe”, pois, de perto, ela é uma sucessão de tensões, avanços e recuos que, no caso do Brasil, transformaram um projeto de colonização costeira em império e, depois, em Estado independente, sempre carregando contradições profundas. No século XVII, a interiorização prometia “domar” sertões desconhecidos e multiplicar riquezas. A palavra sertão, “desertão”, espaço vazio de súditos, logo passou a evocar medo, barbárie e, ao mesmo tempo, oportunidade para a expansão da fé católica, do negócio escravista e da autoridade régia. Bandeiras armadas abriram caminho com violência contra povos indígenas e quilombos, enquanto a Coroa incentivava a busca de metais. Quando o ouro finalmente apareceu em Minas, no final do século XVII, Lisboa falava em “tesouros imensos prontos a serem descobertos”, mas a realidade foi outra: nas lavras, diz Laura de Mello e Souza, proliferaram vadios, miseráveis e “desclass...