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Para que Filosofia no Currículo do Ensino Médio?


 Em um cenário em que diversas disciplinas são raramente questionadas quanto à sua utilidade prática, a Filosofia ocupa um lugar paradoxal: é, talvez, o saber mais frequentemente interrogado acerca de sua relevância. Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, salienta essa incongruência ao afirmar que não costumamos perguntar “Para que Física?” ou “Para que Geografia?”, mas nos parece natural inquirir “Para que Filosofia?”. Essa diferença de tratamento revela, em nosso contexto cultural, a tendência de considerar válida apenas a busca por conhecimentos de aplicabilidade imediata, em detrimento de reflexões mais profundas sobre a realidade, a sociedade e o próprio ser humano.

No entanto, ao observarmos os argumentos da autora – de que a Filosofia possibilita abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum, resistir aos poderes dominantes e compreender as dimensões culturais, históricas e artísticas da vida –, percebemos a essencialidade desse campo para a formação de sujeitos críticos e autônomos. Assim, a Filosofia não se resume a teorias ou autores históricos: ela instiga o exercício permanente da dúvida e do questionamento, hábitos que promovem a consciência do indivíduo sobre si mesmo, sobre seu papel social e sobre os valores que norteiam suas ações. Dessa forma, a disciplina resgata a capacidade de refletir eticamente, encorajando uma sociedade mais plural e democrática.

A manutenção da Filosofia como disciplina obrigatória no Ensino Médio brasileiro, portanto, mostra-se não apenas benéfica, mas indispensável. É por meio dela que o estudante pode desenvolver habilidades de argumentação, análise crítica e autonomia intelectual, competências cada vez mais necessárias em um mundo marcado pela complexidade das relações políticas e sociais. Além disso, a história da disciplina no Brasil, especialmente durante o período ditatorial, comprova que sua retirada da grade curricular geralmente ocorre em contextos de cerceamento à liberdade de pensamento. Retirar ou menosprezar a importância da Filosofia seria, por conseguinte, um retrocesso na consolidação de uma sociedade democrática.

A reflexão oferecida por Marilena Chauí reforça a perspectiva de que a Filosofia é um saber essencial para quem deseja não apenas compreender o mundo, mas também transformá-lo de maneira consciente e responsável. Ela não apenas “serve para alguma coisa”: é um instrumento fundamental para a formação de indivíduos capazes de questionar, debater e construir novas possibilidades de convivência social. Assim, manter a disciplina no currículo do Ensino Médio reflete o compromisso com a formação integral dos jovens, dotando-os das ferramentas intelectuais e éticas para intervir, com autonomia e lucidez, na realidade que os cerca.


Railma Venancio

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