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A literatura como ferramenta de memória e resistência: uma análise da novela Cachorro Velho, de Teresa Cárdenas

Alguns livros nos pegam pela mão com delicadeza, outros nos jogam direto no abismo. Cachorro Velho, da escritora cubana Teresa Cárdenas, pertence a esse segundo grupo. É um livro curto — em páginas — mas longo no eco que deixa. Trata-se de uma narrativa que nos convida a entrar na mente e na vida de um homem escravizado — e a refletir sobre um passado colonial que moldou (e ainda molda) toda a América Latina.

Cuba foi um dos últimos países das Américas a abolir formalmente a escravidão, perdendo apenas para o Brasil. A economia da ilha, durante os séculos XVIII e XIX, foi fortemente baseada na monocultura do açúcar, sustentada pelo trabalho escravo africano. Estima-se que cerca de um milhão de africanos foram traficados para a ilha. A escravidão cubana foi particularmente brutal, marcada por castigos físicos extremos, separação de famílias, e uma completa negação da subjetividade das pessoas escravizadas. Por lá, a abolição só ocorreu em 1886 e é justamente nesse passado brutal que a autora mergulha para nos apresentar um personagem que parece não ter nada — nem nome. É chamado apenas de Cachorro Velho. Animalizado, descartável, invisível.

Nascido e criado dentro de uma fazenda de cana-de-açúcar, Cachorro Velho jamais conheceu outro mundo além dos muros do engenho. Sua mãe, uma mulher africana arrancada de sua terra e cultura, é uma lembrança vaga, distante, quase apagada. Ao longo de seus 70 anos, o personagem viveu sob o peso da servidão, do abuso e da repetição de uma violência tão sistemática que já se naturalizou dentro de si.

O livro é contado num ritmo introspectivo, respeitando o fluxo de pensamentos de um homem envelhecido, já com limitações físicas e, ainda assim, consciente de que se aproxima do ponto de ser “descartado” por não ter mais utilidade ao sistema escravocrata. A narrativa, nesse sentido, é também um retrato do abandono — de corpos, de histórias, de vidas que foram completamente descartáveis aos olhos de seus senhores.

Trata-se de um verdadeiro exercício de empatia: não só sentimos a dor do personagem, mas também mergulhamos na humanidade que lhe foi negada por décadas. Ao nomear seu personagem apenas como “Cachorro Velho”, Teresa Cárdenas denuncia o processo de apagamento identitário imposto às pessoas negras escravizadas. É um símbolo de como os corpos negros foram animalizados, despersonalizados, reduzidos a peças. Ao mesmo tempo, é um chamado à memória. O nome, ainda que cruel, é um ponto de partida para recuperar sua história — e, por meio da literatura, devolver-lhe humanidade.

Apesar de ser uma novela curta, comparável a obras como O Alienista de Machado de Assis ou A Metamorfose de Kafka, Cachorro Velho tem uma densidade emocional imensa. Não é uma leitura “fácil” — não pelos vocábulos, mas pelo peso que carrega. Mais do que uma obra de ficção, Cachorro Velho é um grito de denúncia contra a desumanização imposta pelo colonialismo, mas também um tributo à resistência de um povo que, mesmo subjugado, não deixou de existir — de lembrar, de amar, de sonhar.

Cachorro Velho é, pois, muito mais do que um relato sobre escravidão: é um retrato da dor negra no continente americano. É um chamado à escuta. Um lembrete de que há histórias que precisam ser contadas, recontadas, reconhecidas — e que o racismo, longe de ter sido abolido, ainda molda estruturas, narrativas e silêncios. A autora, ao dar voz a um personagem como Cachorro Velho, quebra esse silêncio. E nos oferece uma oportunidade rara: a de ouvir, sentir e, quem sabe, transformar.


Railma Venancio

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